10.11.05

 

O Dinheiro Cubano: Por Que o Espanto?

Confesso que não entendo o espanto e descrença com que uma parcela significativa da imprensa e da opinião pública recebeu as recentes denúncias da revista Veja sobre o recebimento, pelo Partido dos Trabalhadores, de dinheiro vindo de Cuba para ajudar a financiar a campanha de 2002. Porquê o espanto, meus caros?

É natural e saudável que qualquer denúncia, não importando quão grave, seja tratada com algum grau de ceticismo, em qualquer situação. Pessoas cometem erros, mentem, oferecem versões parciais ou viesadas dos fatos. Jornalistas não são melhores ou piores que qualquer um, e podem sim lançar denúncias sem fundamento; a história recente da imprensa brasileira está repleta de casos desse tipo, como o famoso escândalo da Escola Base (que depois provou-se ser totalmente fantasioso, mas que arruinou a vida de muita gente). Mas existe uma diferença entre analisar ceticamente uma denúncia, em busca de eventuais inconsistências ou fragilidades que comprometam a sua veracidade, e simplesmente desqualificá-la como absurda sem maiores análises. O que têm sido feito com a denúncia do dinheiro cubano é precisamente o segundo caso.

Os argumentos usados para desqualificar a matéria da Veja são tão primários quanto, supostamente, os detratores da revista dizem ser a matéria que ela publicou. Uns dizem que o governo cubano nunca participaria de uma operação “tão amadora”, digna de filmes de espionagem mas fantástica demais para ser real. Mas fantástica demais por que? Dinheiro cubano escondido em caixas de rum e whisky seria por algum acaso menos fantástico do que dólares escondidos em cuecas, malas de dinheiro transitando em aviões particulares, pagamentos a deputados em quartos de hotéis, ou entrevistas de um Presidente da República no exterior confirmando uma versão dos fatos que só viria à tona mais de 24 horas depois da gravação? O escândalo atual nos presenteou com todos esses episódios, concretos e comprovados. Antes deste escândalo, se alguém dissesse que o PT transportava dólares na cueca de seus assessores, alguém acreditaria? Acusar uma denúncia de ser fantástica demais, no atual estágio das coisas, é sofrer de memória seletiva e esquecer de todos os demais episódios, igualmente fantásticos, que o país testemunhou nos últimos meses.

Outros dizem que essa denúncia é uma reedição da supostamente fantasiosa história do “Ouro de Moscou” dos tempos da Guerra Fria. Ora, mas não existe nada de fantasiososo aí: o Ouro de Moscou existiu sim, com numerosas organizações comunistas em todo o mundo recebendo dinheiro da União Soviética para levar adiante a luta pela causa do comunismo. O próprio PCB brasileiro, nos anos 30 e 40, recebia dinheiro de Moscou. A descoberta disso levou à cassação do registro do partido em 1946, já em pleno regime democrático. O Ouro de Washington também existiu; ambos os lados financiaram, em todo o mundo, seus aliados na luta ideológica. E Cuba, como posto avançado do regime soviético nas Américas, sempre desempenhou um papel importante nesse processo. É curioso que aqueles que denunciam o financiamento subterrâneo da esquerda pela URSS ou Cuba como fantasioso não têm o menor problema em aceitar como verídico o mesmo comportamento quando atribuído aos EUA. Cegueira ideológica seletiva talvez?

Por fim, se diz que Cuba passa por grandes privações e não teria dinheiro para financiar o PT no Brasil. Ora, Cuba tem passado por grandes privações desde o dia em que o regime de Fidel Castro tomou controle da ilha, e isso não impediu que “El Comandante” aparecesse na lista da revista Forbes como um dos líderes políticos mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em cerca de 500 milhões de dólares; a questão não parece ser de escassez de recursos, mas de como o líder cubano decide utilizá-los. Afinal de contas, a exportação da revolução sempre foi uma prioridade do seu regime; com todas as suas dificuldades econômicas, Cuba participou ativamente da Guerra Civil Angolana, treinou e armou grupos guerrilheiros na América Central, apoiou os sandinistas da Nicarágua, recebeu de braços abertos líderes e militantes da esquerda perseguidos em seus países natais, e ativamente incitou movimentos guerrilheiros na América Latina e na África. Che Guevara não estava de férias na Bolívia quando morreu. E se isso tudo era possível, em boa medida, graças aos volumosos subsídios que Cuba recebia da União Soviética, é também forçoso reconhecer que Cuba conseguiu encontrar fontes alternativas de renda para sustentar seu regime, como a abertura ao turismo, a melhoria dos preços do açúcar no mercado internacional e, não menos importante, um novo patrono na forma de Hugo Chávez, que comanda a sua Revolução Bolivariana na Venezuela sentado sobre uma montanha de petrodólares. Se Cuba já fez coisas muito mais sérias (e fantásticas) antes, por que não poderia fazer agora?

Por fim, todos esses argumentos ignoram o fato de que Cuba não precisa, necessariamente, ser a origem do dinheiro; o regime de Fidel pode ser simplesmente um testa de ferro. O dinheiro pode ter vindo, por exemplo, de Hugo Chávez, ou de alguma organização de esquerda internacional. Impossível? A CPI da Terra já levantou que o MST, por exemplo, recebeu mais de 30 milhões de dólares de doadores no exterior. A esquerda têm uma longa tradição de internacionalismo e suporte mútuo, cristalizado nas suas várias organizações multinacionais, como as Internacionais Socialistas eo nosso conhecido Foro de São Paulo. Se o MST recebeu dinheiro do exterior, por que não poderia o PT também receber? Não é sequer impossível descartar a hipótese de que o dinheiro seja do próprio PT, enviado ilegalmente para o exterior em algum momento no passado e agora internalizado com a ajuda de Cuba.

O fato é que, uma vez descartados os frágeis argumentos dos que querem jogar a denúncia do dinheiro cubano fora sem investigá-la, as evidências apresentadas pela revista permanecem. Rogério Buratti confirmou seu testemunho; o proprietário do avião supostamente utlizado confirmou tê-lo emprestado a gente do PT, e o aparelho efetivamente realizou uma viagem de Brasília para Campinas nas datas indicadas pela Veja; o piloto do avião confirmou o vôo e o transporte das caixas de bebidas, embora ressalve que nunca viu dinheiro nenhum; e o motorista do carro blindado que teria supostamente levado as caixas para o diretório central do PT confirma a história, embora agora recuse-se a falar com a imprensa. O caso todo pode até se revelar fantasioso no fim, mas não é possível ignorar tantas evidências circunstanciais e descartar a denúncia sem uma investigação aprofundada.

E quanto às declarações enfáticas do presidente Lula de que o caso todo é fantasioso, fica a pergunta: se ele não sabia de nada sobre o mensalão, se ele diz que foi traído, e que tudo foi tramado debaixo das suas barbas sem seu conhecimento, como ele pode ter tanta certeza de que esse episódio específico não é também parte da “traição” que sofreu? Se Lula não sabia de nada sobre os outros casos, como ele sabe alguma coisa agora?

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