20.11.05

 

O que é Resistir Democraticamente

O objetivo do “Final de Campeonato” é defender a resistência democrática ao governo Lula. As razões são óbvias para qualquer um que acompanhe, mesmo que só de vez em quando, as notícias, mas podem ser resumidas da seguinte forma:

1) O governo Lula, eleito com mais de 53 milhões de votos, usou da confiança que lhe foi concedida pelo eleitorado para construir o mais vasto e pernicioso sistema de corrupção que este país já viu. O sistema já existia antes da eleição de 2002, nas prefeituras petistas no interior paulista, e foi transplantado de forma planejada para a administração federal. A isso somou-se todo tipo de irregularidade administrativa e crime fiscal, financeiro e tributário, inclusive o recebimento pelo PT de dinheiro vindo do exterior. Isso constitui uma quebra inadmissível do pacto de confiança entre governantes e governados que rege qualquer governo civilizado;

2) O governo Lula, não satisfeito em saquear o país de forma jamais vista, procura ativamente abafar as investigações e criar um clima de luta de classes no país. Moralmente impedido de governar, Lula e seus asseclas insistem em tentar acusar a oposição de ter inventado as denúncias e clama que um “golpe das elites” estaria em curso. Isso é não apenas completamente absurdo, mas um insulto a todos os brasileiros, que os atuais ocupantes do Planalto parecem considerar ser formada apenas por idiotas;

3) A oposição partidária, apesar de ter recebido o mandato popular de fiscalizar e controlar o governo Lula em 2002, parece incapaz (ou sem vontade) de cumprir seu papel a contento e seguir adiante com aquilo que seria a única coisa digna a se fazer diante da gravidade das denúncias: pedir o impeachment de Lula. A oposição age assim por duas razões: ela também tem o rabo sujo e não deseja ver seus podres expostos em uma eventual devassa do governo Lula, e calcula que é capaz de vencer as eleições em 2006 se mantiver Lula sangrando até lá. O fato de que essa estratégia implica em deixar o país a mercê da gangue que hoje ocupa o Planalto por mais um ano parece não passar pela cabeça de tucanos e pefelistas.

Diante desse quadro, o que resta ao cidadão comum? Resistir. Denunciar o tempo todo o que está acontecendo, sem medo. Criticar o governo (e também a oposição) sempre que tiver oportunidade: em conversas com amigos e familiares, em debates públicos, na internet, no trabalho. É cuspir no chão cada vez que alguém pronunciar o nome de Lula. É exorcisar todo e qualquer pensamento inspirado pelo petismo e pelo lulismo da cabeça. É rejeitar a lógica da corrupção e da bandalheira que tomou conta do país e agir, na sua vida privada e pública, de forma correta e honesta. É defender a lei quando aqueles que tem a obrigação institucional de fazê-lo não o fazem. É ensinar aos filhos que hoje este país é governado por ladrões, mas que não foi sempre assim e que voltaremos a ser governados por gente com um mínimo de seriedade.

Resistir democraticamente, na atual conjuntura, é erguer uma vela de esperança e honestidade na escuridão da corrupção e do aventurismo que tomaram conta deste país. Sozinho, nenhum de nós é capaz de mudar nada; mas juntos, somos legião.

15.11.05

 

Pôr fim ao governo Lula

Excelente artigo do Roberto Mangabeira Unger. Não vou com os cornos dele, acho que ele não sabe muito bem do que fala quando apita sobre economia, mas desta vez ele está inteiramente correto.


Pôr fim ao governo Lula

Roberto Mangabeira Unger, Folha de São Paulo (15/11/05)

Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.

Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.

Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.

Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.

Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.

Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.

Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.

Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.

Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas.

do E-agora.org.br

13.11.05

 

E o Aparelhamento do Estado Continua…

Da coluna de ontem (12/11/05) do jornalista Cláudio Humberto:

Lula quer Tarso Genro no STF
O governo desistiu da emenda que elevaria de 70 para 75 anos a idade-limite de ministros do Supremo Tribunal Federal e tribunais superiores. O presidente Lula optou pela chance de nomear o substituto do ministro Carlos Veloso, que completará 70 anos em 19 de janeiro e se aposentará. O favorito é Tarso Genro, ex-ministro da Educação e ex-presidente do PT. Será o quinto ministro (de um total de onze) nomeado por Lula para o STF.


Como dizia minha avó, árvore que nasce torta nunca se endireita. Pego com a mão na botija, com seus acessores mais próximos (Dirceu, Polocci, Gushiken) ou torpedeados ou em vias de naufrágio, Lula continua pensando a República da mesma forma, desde o começo do mandato: como se fosse um clube privado de amigos, onde o único requisito para ganhar uma boquinha é a amizade com o chefe.

O STF é o guardião da ordem constitucional do país. A indicação de novos ministros para o STF é prerrogativa do Presidente da República, claro, e não é exatamente inesperado que ele queira colocar gente de sua confiança na corte suprema do país. Mas existem limites não-escritos para essa prerrogativa, que nenhum presidente ousa cruzar levianamente (nas monarquias absolutas, eram chamados de "leis consentudinárias"). A tradição, a lei não-escrita, diz que não há problema em indicar um político (mesmo de origem partidária) para ser ministro do STF; no entanto, ele deve ser alguém que é também minimamente respeitado por seus novos pares e pelos magistrados em geral. Deve ter uma história limpa, e uma reputação de independência (mesmo que as simpatias partidárias existam). Ou seja, deve ser alguém de quem se pode, razoavelmente, esperar um mínimo de equilíbrio e respeito pela Constituição.

Podemos realmente imaginar que o sr. Tarso Genro preenche esses requisitos não-escritos?

Tarso Genro é, e sempre foi, um dos grandes ideólogos do PT. Apenas onze dias depois da posse de FHC para seu segundo mandato, Tarso Genro pedia em colunas de jornal a sua renúncia, ignorando solenemente a vontade popular expressa nas urnas. Foi ministro da educação do governo Lula, pai de uma proposta de reforma universitária que poderia ter sido elaborada pela KGB, tamanho o seu viés stalinista e ideológico. Foi presidente interino do PT por indicação direta de Lula; durante sua gestão, não apenas ninguém foi punido pelos escândalos que envolvem a antiga diretoria do partido, como ainda entrou em voga o discurso do "golpe das elites" contra Lula (como se os escândalos em série que vemos não fossem reais, mas apenas maquinação da oposição). Sua proposta de "refundação" do PT resultou na perpetuação do grupo comprometido com o mensalão no controle do partido, na pessoa do também ex-ministro Ricardo Berzolini; Tarso, como bom soldado do partido, engoliu suas propostas e aceitou a "nova" linha do comando como se nada tivesse acontecido. É esse o homem que Lula quer indicar para o STF?

Lula continua achando que indicar os amigos e "companheiros" que tenham perdido disputas internas no partido é uma boa forma de governar o país. Seu ministério é uma coleção de derrotados eleitorais do PT; os orgãos federais estão atulhados de petistas que têm como única qualificação uma carteirinha de membro do partido. Não satisfeito em aparelhar o Executivo e avançar com ofertas expúrias de dinheiro sobre o Legislativo, Lula quer agora aparelhar também o Judiciário. Que tipo de isenção podemos esperar de Tarso Genro como ministro do STF? Entre a Constituição e os interesses do partido, podemos realmente imaginar que Tarso Genro ficaria com a primeira?

Isso é mais uma prova de que o governo Lula representa a tomada de assalto do Estado por uma quadrilha privada. As fronteiras entre o público e o privado foram obliteradas, e o partido e o governo são tratados como se fossem uma coisa só. Isso não é apenas falta de republicanismo; é falta de vergonha na cara mesmo.

Cada dia a mais que Lula fica no poder, a democracia brasileira sai mais contundida, lacerada, cheia de hematomas. Será que ela sobrevive ao espancamento por mais um ano? E por mais cinco?

 

Pelo amor de Deus! Entendam a gravidade da situação em que vivemos

Por Augusto de Franco, 13/11/05
Fonte: www.e-agora.org.br

Enquanto os jornais dos dois últimos dias revelam fortes indícios de que Lula agiu diretamente contra a prorrogação da CPI dos Correios (vejam a matéria de Eduardo Scolese e Pedro Leite, na Folha de S. Paulo de ontem), analistas, colunistas políticos e líderes oposicionistas ficam discutindo (e, incrível, até tomando partido) na “briga” Palocci x Dilma. É muita falta de foco.

A suposta “briga” entre o ministro da Fazenda e a ministra-chefe da Casa Civil não tem a menor relevância no momento atual. Essa briga já existia. Nos últimos tempos não há governo em que ministros políticos que querem gastar o orçamento fazendo coisas não briguem com a área econômica que quer economizar (chega a ser ridículo dito assim), por razões óbvias e, quase sempre erradas – ou seja, é uma disputa em que ambas as partes, em geral, têm razão – o que significa, no caso, dizer que todos estão errados.

Mas não vamos entrar aqui na controvérsia sobre o tamanho do superávit fiscal versus os sempre julgados tão necessários investimentos estatais para promover o desenvolvimento e blá, blá, blá.

O problema é que o país está nas mãos de um grupo privado cujo chefe não pode continuar – simplesmente não pode continuar – agindo como está.

Não sei se me faço entender. Vou tentar explicar novamente. Pela milésima vez: não estou falando do impeachment. Não sou tão boboca a ponto de acreditar na lorota inventada pelas oposições (notadamente pelo PSDB e pelo PFL), segundo a qual ou é o impeachment (para o qual não há condições e, sem condições, seria uma irresponsabilidade propô-lo) ou não é nada (a não ser encaminhar as conclusões das CPIs para a justiça e ficar esperando sentado as providências que... jamais virão).

Estou falando que o presidente e o seu ministro da Fazenda (ao que tudo indica mais responsável do que se julgou pelas operações ilegais que redundaram nisso tudo que estamos vendo) não podem continuar sendo poupados. Não estou falando do impeachment, entenderam? Outra vez, perdão caro leitor: não estou propondo o impeachment. Estou dizendo que Lula deve ser interpelado, agora e não amanhã, hoje e não nas urnas de 2006.

Interpelado para quê e por quê? Interpelado, denunciado, chamado a depor sobre o seu envolvimento (e o do seu governo) na promoção dos crimes e irregularidades e, sobretudo, agora, na obstrução das investigações. Lula não pode continuar se comportando como chefe de um bando. Ele é o presidente da República e não o comandante de uma facção envolvida em uma guerra entre grupos privados. Ou ele assume a posição de magistrado, ou – aí sim – deve ser instado a deixar a chefia do governo e do Estado. O que não pode é Lula continuar agindo assim, mentindo à nação e interferindo para abafar os escândalos e nada acontecer. E as oposições, por medo de alguma coisa (talvez de ordem sobrenatural, já que os mortais comuns não conseguem perceber o que seja) prosseguirem irresponsavelmente fingindo que tudo bem, aceitando um jogo que não faz parte da vida republicana.

Entrar em qualquer disputa colocada pelo governo ou dentro do governo é a maior burrice que a oposição pode cometer. Antes era a briga de Dirceu contra a área econômica. Agora é a Dilma. Essa pauta pode interessar aos economistas mas não interessa ao país, não, pelo menos, neste momento.

O PT sempre tentou – e, em grande parte, conseguiu – fazer com que os seus adversários fossem capturados para dentro do mundinho que criou para si, assumindo, sem se dar conta, suas regras como normas válidas e reproduzindo suas controvérsias particulares como se fossem assuntos de interesse comum. E os basbaques quase sempre caíram na esparrela.

Ora, não nos interessa – aos democratas brasileiros – a vida interna do PT. São assuntos privados.

O PT privatizou tanto a vida política nacional que consegue privatizar inclusive a disputa das idéias, pautando a cena pública com seus assuntos. Muitas vezes uma controvérsia interna era urdida pelo PT com o simples propósito de levantar a bola na entrada da área para Lula chutar. Então lá vinha ele com alguma decisão salomônica e apaziguava os ânimos, reafirmando sua liderança supostamente acima dos conflitos.

Sim, gostaríamos que Lula tivesse tal comportamento em relação às questões públicas, não de mentirinha, mas para valer mesmo. Gostaríamos que ele não se metesse nas investigações em curso, que seguem o ritmo constitucional previsto. Gostaríamos que ele tentasse salvar o que resta da sua biografia adotando uma postura de estadista.

Sabemos que Lula não fará isso. Por isso precisamos interpelá-lo formalmente. Precisamos denunciá-lo dentro e fora do país. Lula não pode se comportar como quem comanda uma guerra interna em um país que não está em guerra civil. Não pode transformar o Palácio do Planalto em um bunker para coagir oposicionistas e comprar aliados às vésperas de decisões que podem prejudicar suas pretensões privadas, individuais ou grupais, de poder.

Quando um presidente faz isso, ele perde completamente a legitimidade que obteve nas urnas, não importa o número de votos que obteve e o número dos que ainda pretendem apoiá-lo em uma próxima eleição. Quando um presidente faz isso ele se coloca fora do campo do diálogo democrático e investe no derruimento das instituições.

Esse é o ponto. Se a política for transformada numa guerra e se o chefe de governo e do Estado se comporta como chefe de uma facção beligerante, então ele não é mais o chefe do governo e do Estado (de todos) e sim o chefe de um aparelho governamental privatizado e de um ‘Estado paralelo’ (de alguns) que criou ou pretende criar.

Não há – como repetem tolamente certos analistas políticos – uma guerra entre PT e PSDB (e PFL e demais partidos oposicionistas) ou entre governo e oposição. O que há é um presidente que ao invés de se comportar como chefe de governo se comporta como chefe de um grupo. O que há é um governo (e um partido que dele se apossou) que instaurou a maior operação de aparelhamento já vista na história recente e que lançou mão de meios criminosos em larga escala para falsificar o processo democrático às custas do roubo de recursos públicos visando a se perpetuar no poder. A oposição protesta, esperneia, como é seu dever, mas não constitui um outro pólo de poder nesse confronto. Eis uma situação esdrúxula e perigosíssima para a democracia: é como se houvesse dualidade de poder sem que um dos pólos tivesse poder, o que serve apenas para prorrogar o poder de quem já o detém.

Pelo amor de Deus! Entendam a gravidade da situação em que vivemos.

12.11.05

 

Quem Deve, Teme

É óbvio que o governo não queria a prorrogação da CPI dos Correios. Afinal de contas, é ela que está desvendando os caminhos do dinheiro do Valérioduto; e ainda pode acabar gerando uma nova lista de sacadores ou beneficiários do esquema, com todas as consequências que isso pode trazer. O governo têm, óbviamente, medo.

O que ele não tem, obviamente, é um pingo sequer de decência. O PT e seus aliados atuaram para impedir a prorrogação da CPI poucos dias depois do Supremo Apedeuta, em entrevista no Roda Viva, dizer que não apenas não interferira ou interferiria nas investigações, como que as apoiava integralmente. Das duas, uma: ou Lula, para variar só um pouquinho, não sabe de nada (aliás, será que ele sabe que é Presidente da República?) e o PT e aliados agiram por conta própria no Congresso, ou ele mentiu descaradamente no Roda Viva, e não tem o menor pudor de deixar isso óbvio e transparente para a sociedade brasileira. Deixo aos leitores decidir qual hipótese parece mais provável…

“Sigam o dinheiro”, já dizia o Garganta Profunda, personagem central no famoso escândalo de Watergate, que derrubou o presidente americano Richard Nixon. É isso que precisa ser feito. E é isso que o governo mais teme.

10.11.05

 

O Dinheiro Cubano: Por Que o Espanto?

Confesso que não entendo o espanto e descrença com que uma parcela significativa da imprensa e da opinião pública recebeu as recentes denúncias da revista Veja sobre o recebimento, pelo Partido dos Trabalhadores, de dinheiro vindo de Cuba para ajudar a financiar a campanha de 2002. Porquê o espanto, meus caros?

É natural e saudável que qualquer denúncia, não importando quão grave, seja tratada com algum grau de ceticismo, em qualquer situação. Pessoas cometem erros, mentem, oferecem versões parciais ou viesadas dos fatos. Jornalistas não são melhores ou piores que qualquer um, e podem sim lançar denúncias sem fundamento; a história recente da imprensa brasileira está repleta de casos desse tipo, como o famoso escândalo da Escola Base (que depois provou-se ser totalmente fantasioso, mas que arruinou a vida de muita gente). Mas existe uma diferença entre analisar ceticamente uma denúncia, em busca de eventuais inconsistências ou fragilidades que comprometam a sua veracidade, e simplesmente desqualificá-la como absurda sem maiores análises. O que têm sido feito com a denúncia do dinheiro cubano é precisamente o segundo caso.

Os argumentos usados para desqualificar a matéria da Veja são tão primários quanto, supostamente, os detratores da revista dizem ser a matéria que ela publicou. Uns dizem que o governo cubano nunca participaria de uma operação “tão amadora”, digna de filmes de espionagem mas fantástica demais para ser real. Mas fantástica demais por que? Dinheiro cubano escondido em caixas de rum e whisky seria por algum acaso menos fantástico do que dólares escondidos em cuecas, malas de dinheiro transitando em aviões particulares, pagamentos a deputados em quartos de hotéis, ou entrevistas de um Presidente da República no exterior confirmando uma versão dos fatos que só viria à tona mais de 24 horas depois da gravação? O escândalo atual nos presenteou com todos esses episódios, concretos e comprovados. Antes deste escândalo, se alguém dissesse que o PT transportava dólares na cueca de seus assessores, alguém acreditaria? Acusar uma denúncia de ser fantástica demais, no atual estágio das coisas, é sofrer de memória seletiva e esquecer de todos os demais episódios, igualmente fantásticos, que o país testemunhou nos últimos meses.

Outros dizem que essa denúncia é uma reedição da supostamente fantasiosa história do “Ouro de Moscou” dos tempos da Guerra Fria. Ora, mas não existe nada de fantasiososo aí: o Ouro de Moscou existiu sim, com numerosas organizações comunistas em todo o mundo recebendo dinheiro da União Soviética para levar adiante a luta pela causa do comunismo. O próprio PCB brasileiro, nos anos 30 e 40, recebia dinheiro de Moscou. A descoberta disso levou à cassação do registro do partido em 1946, já em pleno regime democrático. O Ouro de Washington também existiu; ambos os lados financiaram, em todo o mundo, seus aliados na luta ideológica. E Cuba, como posto avançado do regime soviético nas Américas, sempre desempenhou um papel importante nesse processo. É curioso que aqueles que denunciam o financiamento subterrâneo da esquerda pela URSS ou Cuba como fantasioso não têm o menor problema em aceitar como verídico o mesmo comportamento quando atribuído aos EUA. Cegueira ideológica seletiva talvez?

Por fim, se diz que Cuba passa por grandes privações e não teria dinheiro para financiar o PT no Brasil. Ora, Cuba tem passado por grandes privações desde o dia em que o regime de Fidel Castro tomou controle da ilha, e isso não impediu que “El Comandante” aparecesse na lista da revista Forbes como um dos líderes políticos mais ricos do mundo, com uma fortuna estimada em cerca de 500 milhões de dólares; a questão não parece ser de escassez de recursos, mas de como o líder cubano decide utilizá-los. Afinal de contas, a exportação da revolução sempre foi uma prioridade do seu regime; com todas as suas dificuldades econômicas, Cuba participou ativamente da Guerra Civil Angolana, treinou e armou grupos guerrilheiros na América Central, apoiou os sandinistas da Nicarágua, recebeu de braços abertos líderes e militantes da esquerda perseguidos em seus países natais, e ativamente incitou movimentos guerrilheiros na América Latina e na África. Che Guevara não estava de férias na Bolívia quando morreu. E se isso tudo era possível, em boa medida, graças aos volumosos subsídios que Cuba recebia da União Soviética, é também forçoso reconhecer que Cuba conseguiu encontrar fontes alternativas de renda para sustentar seu regime, como a abertura ao turismo, a melhoria dos preços do açúcar no mercado internacional e, não menos importante, um novo patrono na forma de Hugo Chávez, que comanda a sua Revolução Bolivariana na Venezuela sentado sobre uma montanha de petrodólares. Se Cuba já fez coisas muito mais sérias (e fantásticas) antes, por que não poderia fazer agora?

Por fim, todos esses argumentos ignoram o fato de que Cuba não precisa, necessariamente, ser a origem do dinheiro; o regime de Fidel pode ser simplesmente um testa de ferro. O dinheiro pode ter vindo, por exemplo, de Hugo Chávez, ou de alguma organização de esquerda internacional. Impossível? A CPI da Terra já levantou que o MST, por exemplo, recebeu mais de 30 milhões de dólares de doadores no exterior. A esquerda têm uma longa tradição de internacionalismo e suporte mútuo, cristalizado nas suas várias organizações multinacionais, como as Internacionais Socialistas eo nosso conhecido Foro de São Paulo. Se o MST recebeu dinheiro do exterior, por que não poderia o PT também receber? Não é sequer impossível descartar a hipótese de que o dinheiro seja do próprio PT, enviado ilegalmente para o exterior em algum momento no passado e agora internalizado com a ajuda de Cuba.

O fato é que, uma vez descartados os frágeis argumentos dos que querem jogar a denúncia do dinheiro cubano fora sem investigá-la, as evidências apresentadas pela revista permanecem. Rogério Buratti confirmou seu testemunho; o proprietário do avião supostamente utlizado confirmou tê-lo emprestado a gente do PT, e o aparelho efetivamente realizou uma viagem de Brasília para Campinas nas datas indicadas pela Veja; o piloto do avião confirmou o vôo e o transporte das caixas de bebidas, embora ressalve que nunca viu dinheiro nenhum; e o motorista do carro blindado que teria supostamente levado as caixas para o diretório central do PT confirma a história, embora agora recuse-se a falar com a imprensa. O caso todo pode até se revelar fantasioso no fim, mas não é possível ignorar tantas evidências circunstanciais e descartar a denúncia sem uma investigação aprofundada.

E quanto às declarações enfáticas do presidente Lula de que o caso todo é fantasioso, fica a pergunta: se ele não sabia de nada sobre o mensalão, se ele diz que foi traído, e que tudo foi tramado debaixo das suas barbas sem seu conhecimento, como ele pode ter tanta certeza de que esse episódio específico não é também parte da “traição” que sofreu? Se Lula não sabia de nada sobre os outros casos, como ele sabe alguma coisa agora?

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